Reportagem Norte-Sul 2019

Reportagem Norte-Sul 2019

Dia 0 – Rumo ao sul em Land Rover

2 DE OUTUBRO, 2019

A espera foi longa. Muitos meses. Mas já vamos rumo ao sul em Land Rover. O passeio Portugal Norte-Sul, do Clube Land Rover de Portugal, está já a começar: a partida de Mirandela ficou marcada para as 07h30 da manhã desta quinta-feira. Para a caravana chegar a Vilamoura ao anoitecer de sábado, 5 de Outubro. Esta primeira jornada será o dia mais longo. Mas pensando no quanto Portugal é bonito, dizermos que a primeira etapa será a mais bonita não é justo…

Frederico Gomes, o Presidente do Clube Land Rover de Portugal, avisou no seu “briefing”, na véspera da partida, que “todos os dias vão ser longos, mas o primeiro ainda vai ser mais comprido!” E o que isso quer dizer? Foi o próprio Frederico que precisou: “Teremos de percorrer praticamente três centenas de quilómetros, maioritariamente fora da estrada…”

E são 29 Land Rovers na caravana

Desde Mirandela, o percurso recua um pouco a norte, para alcançar Macedo de Cavaleiros e as pistas que sobem à serra de Bornes. A partir daí, será sempre rumo ao sul em Land Rover. Sim, porque os 29 veículos que integram a caravana são, obviamente, todos da Land Rover. E há um pouco de tudo: muitos Discovery, das três primeiras gerações, alguns Range Rover Classic e Sport, além dos icónicos Defender. E entre tantos, há um que se destaca especialmente: é um “Ninety”, como os britânicos lhe chamam, que tem características únicas. Trata-se de um veículo militar, que esteve ao serviço do exército britânico e que Rui Teixeira, um dos responsáveis pelo percurso do “Portugal Norte-Sul” comprou num leilão.

Este Defender militar, que mantém a pintura original “verde tropa”, assim como grande parte do equipamento, é um dos quatro veículos da organização. Tem por missão rolar a meio da caravana, sem uma posição fixa. Para abastecer os participantes de garrafas de água ou de um retemperador café expresso, que será ainda mais saboroso quando servido em plena natureza. E como esta jornada atravessa o Douro e algumas das suas vinhas mais famosas, não faltam umas garrafas de Porto, para um brinde num cenário improvável e, seguramente, majestoso.

 

Das alheiras ao queijo “mal-cheiroso”…

A PRIMEIRA ETAPA DO PASSEIO PORTUGAL NORTE-SUL É A MAIS EXTENSA. E PARA SEGUIR RUMO AO SUL EM LAND ROVER E LIGAR MIRANDELA A CASTELO BRANCO NUM DIA, NÃO HAVERÁ PARAGEM PARA ALMOÇO; MAS APENAS UM LEVE PIQUENIQUE. E DE CERTEZA QUE O JANTAR SERÁ BASTANTE APRECIADO…

Se esta fosse uma rota gastronómica, diríamos que a primeira etapa nos leva da terra das alheiras à do queijo “mal-cheiroso”. Ou seja, de Mirandela a Castelo Branco. E o que se adivinha no caminho? Alguma poeira, porque os caminhos estão bastante secos. Isso é tão garantido quanto as paisagens desafogadas que irão ser apreciadas ao longo de quase, quase 300 quilómetros.

“A maior dificuldade será a distância, pelo que é natural que ninguém chegue a Castelo Branco senão ao crepúsculo”, avisou Rui Teixeira, a propósito do percurso. “Há que ter cuidado com os caminhos pedregosos, porque há muitas pedras afiadas e um descuido por resultar num furo!” De resto, os caminhos são rolantes, “até porque se complicássemos o percurso, um dia não chegaria…”

Pela nossa parte, estaremos a acompanhar a caravana livremente. E fica já marcado encontro para o cair da noite, com as nossas impressões e imagens desta primeira etapa…

Dia 1 – O dia mais longo

4 DE OUTUBRO, 2019

O PASSEIO PORTUGAL NORTE-SUL COMEÇOU ESPREITANDO ESTA PAISAGEM, DO NORDESTE TRANSMONTANO

O Passeio Portugal Norte-Sul começou ontem com aquele que foi o dia mais longo: praticamente três centenas de quilómetros decorridos entre Macedo de Cavaleiros e Castelo Branco. E percorridos essencialmente por caminhos de terra. Claro que nem todos conseguiram cumprir o itinerário, tal como estava previsto. Nem nós, que chegámos à Guarda já com o pôr do sol. E como o passeio não previa um desafio nocturno, daí em diante seguimos por asfalto até à chegada. E até conseguimos não ser os últimos!

Teríamos ficado ainda mais satisfeitos se tivéssemos conseguido cumprir o percurso todo. Sobretudo porque o que vimos até à Guarda foi tão bonito e agradável, que ficámos com uma sensação de alguma perda. Daí que para esta sexta-feira, tenhamos decidido inverter a posição na caravana: em vez de sermos os últimos a arrancar, seremos os primeiros.

Hoje, o percurso reserva-nos de novo bem mais de duas centenas de quilómetros. Que serão essencialmente cumpridos no Alto Alentejo, pois das Beiras já resta pouco: despedimo-nos da Beira Baixa quando cruzarmos o rio Tejo, em Vila Velha do Ródão. E isso não fica muito longe de Castelo Branco…

O PRIMEIRO DIA DO PASSEIO PORTUGAL NORTE-SUL FOI O DIA MAIS LONGO PARA A CARAVANA. QUASE TRÊS CENTENAS DE QUILÓMETROS, QUASE SEMPRE FORA DA ESTRADA. COMEÇÁMOS NO NORDESTE TRANSMONTANO…

Reviver memórias da juventude

A primeira jornada do “Portugal Norte-Sul” trouxe-nos muito mais do que um desfilar de paisagens maravilhosas, desde o nordeste transmontano às terras beirãs. Reabriu-nos belas memórias de juventude, fazendo-nos sentir a participar no célebre Raid Transportugal, que José Megre e Pedro Vilas Boas criaram em 1986. Participámos em inúmeras edições e ontem lembrámo-nos de uma que começou igualmente em Trás-os-Montes e nos levou Portugal abaixo por paisagens como as que vimos.

A sensação de uma viagem no tempo, ao passado, foi ainda mais acentuada pelo veículo em que nos deslocamos. Trata-se de um Range Rover Classic 300 Tdi, branco, de cinco portas. Com um quarto de século. O primeiro carro destes que chegou a Portugal foi nosso. E rodou pela primeira vez nestes cenários, que visitámos quinta-feira. Andou junto às margens do Douro, com o Professor Aníbal Cavaco e Silva ao volante, seguido por um Range Rover quase igual, mas de motor V8 a gasolina e carroçaria blindada. Esse, levava ao volante o britânico John Major; um era Primeiro-Ministro de Portugal, outro do Reino Unido e encontraram-se para um fim-de-semana de férias no Douro, passando em todo terreno.

No regresso a Lisboa, o Range Rover de “Cavaco e Silva” tinha ainda apenas 700 quilómetros rodados. E foi essa a quilometragem que marcava quando o recebemos. E voltámos diversas vezes a fazer a viagem inaugural, a mesma que ontem nos pareceu estarmos a repetir.

Um clássico obriga-nos a estar preparados para avarias

COMEÇÁMOS ABORDANDO A SERRA DE BORNES, ONDE SUBIMOS QUASE AO CIMO. E DEPOIS DESCEMOS LENTAMENTE, DESFRUTANDO A PANORÂMICA DO VALE DO RIO SABOR

Em 1994, esse Range Rover era um carro novo. Hoje, o que trazemos, com Frederico Gomes, o Presidente do Clube Land Rover de Portugal, é mais do que um clássico. “É um carro que há duas décadas só é usado para rodar em todo terreno”. E passa muito tempo guardado na garagem. Já viajou diversas vezes até África, onde conheceu as primeiras avarias. Algumas bastante arreliadores, como uma que sofreu há alguns anos numa passagem pela Mauritânia. “Nunca tinha tido tantos aborrecimentos, não pela gravidade da avaria, mas essencialmente pela dificuldade em repará-lo em Nouadhibou. Arranjaram-me um mecânico que desmontou o carro e depois não conseguiu voltar a montá-lo. Foi pior que uma dor de cabeça. Foi um pesadelo!”, recordou Frederico Gomes.

Ontem, quase também revivemos isso. Quase, porque o problema foi bastante simples: uma mera cruzeta do veio de transmissão que partiu, depois do esforço e da falta de lubrificação. Por ter estado tanto tempo parado. Foi isso que nos impediu de ter ido mais além da Guarda. Porque como o Clube Land Rover de Portugal trouxe um mecânico e um conjunto de peças sobressalentes que permitissem assistir “emergências” aos veículos do passeio, estreámos a “assistência em viagem”.

Uma hora e meia parados em Vila Franca das Naves, literalmente a ver passar comboios, pois estacionámos junto à estação dos caminhos de ferro, não só deu tempo para descansar, para socializar num dos cafés do largo e, tranquilamente, ver o Range Rover ficar pronto para mais uma tirada. Como a que agora mesmo vamos começar. Até logo, em Reguengos de Monsaraz!

ROLANDO LENTAMENTE, A APRECIAR PAISAGENS, A CARAVANA FOI-SE DISPERSANDO. SEM POEIRA, A VISTA TEM OUTRO ENCANTO!

Dia 2 – O norte já ficou bem atrás

5 DE OUTUBRO, 2019

ENTRE AS 29 VIATURAS DA CARAVANA, HÁ UM GRUPO DE MEIA-DÚZIA QUE SE DESTACA: SÃO OS ÚNICOS QUE EM DOIS DIAS AINDA NÃO DEIXARAM UM METRO POR PERCORRER!…

Cumprido o segundo dia de percurso, o norte já ficou bem atrás. Trás-os-Montes e as Beiras, Alta e Baixa, foram ultrapassadas num par de jornadas, que trouxeram a caravana do Passeio Portugal Norte-Sul até ao Alto Alentejo. Restam atravessar duas regiões: o Baixo Alentejo, com as suas planícies, e o Algarve, que será abordado pelas serranias. O Clube Land Rover de Portugal anuncia um percurso tranquilo para o dia final. E promete ainda uma dose reforçada de paisagens, avisando que ninguém terá dificuldades em chegar a Vilamoura…

O Passeio Portugal Norte-Sul desceu nesta sexta-feira da Beira Baixa até ao Alto Alentejo. E na jornada que levou a caravana de Castelo Branco a Reguengos de Monsaraz, só não completou o percurso quem não o quis mesmo fazer; ao contrário do que aconteceu no primeiro dia, em que somente meia-dúzia de participantes conseguiu cumprir todo o itinerário!

A elevada distância, “mais até do que os 300 quilómetros anunciados”, assegurou-nos Cátia Mateus, fez do primeiro dia uma maratona. E como o percurso era quase todo por caminhos de terra, alternando estradões rolantes com trilhos duros, vencê-lo na integra obrigou a grande disciplina. Ou, por outras palavras, implicou manter um bom ritmo de andamento durante toda a jornada. Mas foi esse o desafio do grupo onde se insere Cátia Mateus, o único que pode realmente contar o que viu a cada metro deste Passeio Portugal Norte-Sul. Porque as outras 23 equipas não viram tudo; só uma parte, grande, em muitos casos, pouca ou até quase nada, noutros casos.

A ENTRADA NO ALENTEJO FEZ-SE NO CONCELHO DE NISA POR CAMINHOS APERTADOS ORA ENTRE EUCALIPTOS, ORA ENTRE SOBREIROS E AZINHEIRAS. A PARTIR DESTE PONTO PODEMOS DIZER QUE O NORTE JÁ FICOU BEM ATRÁS

O dilema de sempre: preguiça ou acção?

Fora da estrada, uma boa média de andamento, anda pelos 30 km/h. Acima disso, o ritmo já não é o de passeio, mas sim de corrida. E a distância da etapa inicial obrigava a um compromisso entre os dois ritmos: para que fosse possível não abreviar caminho para terminar a tempo de jantar, era fundamental andar bem e parar pouco. Como se os participantes fossem confrontados com um dilema, entre a preguiça e a acção?

No nosso caso, claramente que preguiçámos, com incontáveis paragens, umas para apreciar demoradamente as paisagens, outras até para um café, para dois ou três deles. Mas a maior paragem foi para uma reparação. E já em Castelo Branco, quando percebemos que não percorremos senão cerca de dois terços do percurso, ficámos com uma sensação de perda. Porque por muito que conheçamos este Portugal maravilhoso, sobretudo pelas perspectivas únicas que só se revelam nestes caminhos, nunca conheceremos tudo.

Quatro cafés e pão de ló caseiro…

ESTE LAND ROVER 90 ESTEVE AO SERVIÇO DO EXÉRCITO BRITÂNICO E ENTROU EM ACÇÃO NA BÓSNIA, DURANTE A GUERRA. NESTE PASSEIO, TEM UMA MISSÃO BEM MAIS PACÍFICA: TRANSPORTA O CAFÉ E TUDO O QUE É PRECISO PARA SER SERVIDO

E a curiosidade por conhecer o que já não chegámos a percorrer, fez-nos encarar o segundo dia com mais empenho. Nós e praticamente todos os participantes. É certo que o percurso não era tão longo, o que tornou mais fácil a tarefa de cumprir integralmente o itinerário. Não deixámos de parar para tomar café. Por quatro vezes! Numa delas até fomos brindados com uma fatia de pão de ló que veio de Rio Maior para alegrar-nos a gula; e mais caseiro e saboroso não podia ser, amarelo de tantos ovos que leva, e fofo, quase esponjoso, como se exige de um pão de ló.

O bolo, generosamente partilhado pelo grupo que na véspera deu o exemplo, ao pôr-nos a pensar que merece a pena um esforço para cumprir todo o percurso, foi-nos oferecido em Castelo de Vide. Na segunda paragem, a que ninguém se furtou, ou não fosse o ponto onde podíamos recolher o pacote com o “almoço”. E escreve-mo-lo entre aspas porque só não lhe chamámos lanche, porque o comemos à hora do almoço.

Na primeira dose de café, oferecida também pelo Clube Land Rover de Portugal, fomos dos poucos que pararam junto ao cais fluvial de Vila Velha do Ródão. Na terceira, arrependemo-nos por não ter parado mais cedo no Restaurante O Álvaro, em Urra. Porque sacrifício foi não termos acompanhado uns companheiros de viagem nos petiscos que os fizeram sentar-se à mesa desta casa afamada, não muito longe de Portalegre.

Sandes de presunto para aconchegar e mini para refrescar

AS PLANÍCIES QUE SE NOS ESTENDERAM DEPOIS DE PORTALEGRE, ALIMENTARAM-NOS TUDO MENOS O ESTÔMAGO

A sanduíche de queijo e fiambre que fez de conta do almoço rapidamente deixou de sentir-se no estômago. E desde a Serra de São Mamede às planícies além de Portalegre, Monforte e Barbacena, os caminhos admiráveis que percorremos alimentaram-nos tudo menos o estômago. Por isso, já depois de avistarmos o Guadiana pela primeira vez neste passeio, sentimos o apelo de um reclame luminoso onde se lia: Café!

Estávamos na Mina do Bugalho, pequena aldeia onde os habitantes mais velhos dizem que nem os avós alguma vez viram a mina a laborar. Diziam sim, era que em tempos se explorou volfrâmio e cobre. E nós pedimos uma mini para refrescar, e uma sanduíche de presunto, meio rançoso e servida em pão duro, que partilhámos com a Marta. Ela, a gata, que já é avó, como nos contou a dona do café, ainda tinha mais fome que nós, pois até as migalhas lambeu do meio da calçada. E lambeu-se mesmo com uns farripos de presunto que lhe atirámos.

Mais reconfortados, arrancámos em direcção ao Rosário e surpreendemos um pequeno grupo de Land Rovers, parados à sombra de uma enorme azinheira. Eram os carros do grupo que Frederico Gomes, o Presidente do Clube Land Rover de Portugal, tinha felicitado por terem cumprido todo o percurso. Havia ali petisco, na certa. E também repuseram energias, porque rapidamente nos alcançaram.

Na cauda da caravana desde a partida até à chegada!

SEMPRE POR CAMINHOS ROLANTES, A SEGUNDA ETAPA FOI UM SUCESSO PARA TODA A CARAVANA. E NÓS SEGUIMOS QUASE SEMPRE NA CAUDA…

Talvez não sejamos os recordistas em paragens, da caravana que integra o Passeio Portugal Norte-Sul. Mas grande parte das nossas paragens devem-se à constante recolha de imagens. Para mais tarde recordar, como dizia o slogan da Kodak, em tempos que já lá vão. No entanto, enquanto no primeiro dia nunca recuperámos o atraso das paragens, nesta segunda etapa toda a gente, talvez mesmo sem excepção, atrasou-se. E as constantes paragens do nossos companheiros de caminho permitiram sempre que os alcançássemos.

A paragem final para mais uma dose de café, servida pelo “barista” da organização, o incansável Rui Teixeira, ofereceu-nos a oportunidade de mais um desses reagrupamentos. Mas quando chegámos ao adro da ermida de Nossa Senhora das Neves, perdida num cabeço a sul da foz da ribeira de Lucefécit, toda a gente partiu. E lá percorremos solitariamente o último troço do percurso, passando por Montejuntos sem pararmos em nenhum dos quatro cafés. Embora os quatro cafés desta pequena aldeia se situem em frente uns dos outros, junto ao cruzamento principal, a clientela que se acumulava à porta mostrava que o negócio dá para todos!

A dureza do caminho até à Herdade do Roncanito já nos é familiar há décadas. E rolámos, como sempre, devagar, para evitar quer furar pneus, pois o caminho é revestido por pedras, quer para que o Range Rover não se desmontasse. Ainda bem que o fizemos, porque cruzamo-nos de frente com um grupo de “motards”, num treino de final de tarde; não fossemos cautelosos e podia ter sido mais do que um susto. Podia ter sido um acidente…

Celebrar a jornada à mesa, com migas e carne de porco

Confessamos aqui que atalhámos a subida a Monsaraz, para uma passagem pela vila. Porque já assistimos ao pôr do sol no caminho em direcção a Reguengos de Monsaraz. E é óbvio que chegámos de novo de noite. Mas, desta feita, desfrutámos plenamente do percurso traçado pelo Clube Land Rover de Portugal. E se o norte já ficou bem atrás, também o sul vai adiantado. O último reagrupamento da segunda jornada foi sentados à mesa, diante de um prato de migas com carne de porco do alguidar.
E antes de uma fatia de bolo rançoso, o “briefing” para a etapa final não podia ter sido mais breve: “O percurso em todo terreno termina com uma descida acentuada, na serra de Espinhaço de Cão. Tem muita pedra e quem não tiver bons pneus, deve descer por um caminho alternativo” – avisou Frederico Gomes. E acreditamos que o aviso é para levar a sério…

Dia 3 – A alegria e tristeza de terminar o “Norte-Sul”

6 DE OUTUBRO, 2019

A ETAPA FINAL DO PASSEIO PORTUGAL NORTE-SUL MOSTROU O MELHOR DO BAIXO ALENTEJO E DO ALGARVE. NÃO IMAGINAMOS MELHOR SELECÇÃO DE PERCURSOS NESTAS DUAS REGIÕES. OS RECONHECIMENTOS FEITOS PELO CLUBE LAND ROVER DE PORTUGAL FORAM EXCELENTES!

Foram três jornadas tão absorventes e intensas que nos esquecemos de tudo e mais alguma coisa. Só pensámos nos momentos fantásticos que vivemos a atravessar Portugal pelo interior. E mais do que termos ido “à província”, quase perdemos o costume de conduzir em estradas asfaltadas. Porque o maior desafio do programa de 2019 do Clube Land Rover de Portugal foi levar uma caravana a percorrer perto de 950 quilómetros de Trás-os-Montes ao Algarve. Os percursos, quase sempre fora da estrada, foram tão belos que temos dificuldade em eleger o sector mais bonito. Ao alcançarmos Vilamoura, ao cair da noite de sábado, sentimos a alegria e tristeza de terminar o “Norte-Sul”…

Alegria porque esta foi uma experiência marcante, de tão agradável. O sentimento torna-se mais forte se sublinharmos que estivemos três dias “em serviço”. Só nós e o mecânico Luís Feliciano integrámos a caravana do “Portugal Norte-Sul” desempenhando as funções profissionais. Os elementos do Clube Land Rover de Portugal que estiveram envolvidos na organização, também se fartaram de trabalhar; mas não desta maneira. No entanto, tal como eles, entendemos que “quem trabalha por gosto, não cansa”; lá diz o velho ditado popular. E passar três dias a trabalhar viajando de norte a sul do País para acompanhar este passeio em todo terreno, foi uma alegria. E um privilégio!

A tristeza, essa sentimo-la pela dureza do re-despertar para a realidade do quotidiano. Acabou-se a festa e mesmo que não tenhamos esperado nem uma dúzia de horas para voltarmos a conduzir fora da estrada, a animação não é a mesma. Os cenários sim, são igualmente fantásticos. Mas sentimos a falta da enorme agitação que nos animou durante estes dias. Foram só três jornadas, mas chegaram para nos criar rotinas que, de repente, desapareceram; tal como as pessoas…

E o prazer de já sentirmos boas memórias!

JUNTO ÀS ÁGUAS DA BARRAGEM DE ALQUEVA, PERTO DA AMIEIRA, TODA A GENTE PAROU PARA UMA FOTOGRAFIA DE GRUPO. E QUE GRUPO! ENTRE CERCA DE SEIS DEZENAS DE COMPANHEIROS DE VIAGEM, A HARMONIA FOI PERMANENTE

Ainda mal nos tínhamos despedidos dos participantes e organizadores deste passeio e já nos passavam pela cabeça as memórias do “Portugal Norte-Sul 2019”. As mais fortes, claro, são as das jornada final, decorrida entre Reguengos de Monsaraz e Vilamoura a um ritmo de…passeio. Ora rolámos depressa pelas pistas de vista desafogada das planícies de Beja, ora parámos aqui e acolá, para esticar as pernas, para um petisco, ou para registar fotografias como as que mostramos.

Partimos bem cedo, a manhã ainda estava por acordar. E até sentimos algum desanimo por entrarmos num dia cinzento, como começou este sábado. No Campinho, a primeira aldeia que a caravana cruzou, depois de deixarmos Reguengos de Monsaraz, já havia gente pelas ruas. Talvez pela frescura do amanhecer, em contraponto com o calor da véspera? Daí até à Amieira foi um pulo e a estrada estava por nossa conta. Como se fosse feriado. Que até era…

Em cortejo até Alqueva: à barragem e à aldeia

Mal entrámos no estradão de terra que leva desde as imediações da Marina da Amieira, até à aldeia de Alqueva, uma dúzia de quilómetros mais adiante, formou-se uma densa cortina de poeira. Os 29 Land Rovers seguiam ainda quase colados e o pó mal deixava ver o caminho. Mas o cortejo durou pouco. Apenas o necessário para encontrarmos o amplo largo escolhido para a tradicional fotografia de grupo. E para que Rui Teixeira, o “homem do catering”, como já lhe chamavam, nos oferecesse o primeiro café do dia. E o saco com o “almoço”. Que sempre foi mais “almoço” que o dos dias anteriores, pois a sanduíche de queijo e fiambre solitária deu lugar a um par delas, com carne assada e folhas de alface. Um luxo!

Depois de pormos toda a gente a olhar para nós, como se fosse uma formatura militar, demos ordem para “destroçar”. E de repente estávamos praticamente sozinhos no meio do restolho. A vontade de enfrentar mais uns quilómetros de pistas era enorme. E ninguém acusava o cansaço. Mas quando chegámos à aldeia de Alqueva, parecia hora de ponta. O largo da igreja estava entupido com Land Rovers. E a esplanada do café em frente encheu-se com grupos de participantes; embora todos tivéssemos acabado de tomar café, onde não é suposto fazê-lo, no campo.

O LARGO DA IGREJA DE ALQUEVA FICOU ENTUPIDO POR LAND ROVERS. AO TERMINAR O SEGUNDO PERCURSO EM TERRA, NÃO FALTOU QUEM SENTISSE A “GARGANTA SECA”, DE TANTA POEIRA. E O CAFÉ ALIVIOU INÚMEROS PARTICIPANTES

Às voltas por Moura, Pias e o “reino do olival”

Ao olhar para a torre do relógio, demo-nos conta que acabavam de “bater” as nove da manhã. Pouco mais adiante, quando cruzámos o paredão da barragem, estavam a estacionar os primeiros autocarros com excursionistas. Pareciam todos avós, mas já vinham bem despertos, tão rápido que se esgueiraram no muro da barragem. Nem deram conta que os Land Rover passaram por ali?

Onde não passámos despercebidos foi em Moura. Era dia de feira e isso explicava o movimento tão elevado. Demos algumas voltas, mas aproveitámos o facto de muitos terem decidido parar, para nos adiantarmos. Até Pias, seguimos uma rota que nos levou a cruzar inúmeras vezes a antiga linha de comboio do Ramal de Moura. Desde Beja até Moura, o caminho de ferro estendia-se por 59 quilómetros, onde os comboios deixaram de circular em 1990. Hoje, logo à saída de Moura, os últimos vestígios da linha estão a desaparecer debaixo de um enorme olival, que em breve mudará para sempre a paisagem.

Onde ainda há poucos anos víamos apenas searas a ondular ao vento, agora somente temos uma imensa mancha verde, compacta, formada por milhares e milhares de oliveiras. Este cenário prevaleceu mesmo depois de voltarmos a atravessar o Guadiana. Na margem direita, tomámos o caminho, onde a antiga estação do comboio ainda continua de pé. Mas já não está perdida no meio da planície. Está rodeada por uma mancha verde-oliva!

POUCO DEPOIS DE PIAS, A PASSAGEM A VAU DESTA RIBEIRA, AINDA CHEIA DE ÁGUA, SURPREENDEU-NOS. POR BREVES INSTANTES, A POEIRA DEU LUGAR A SALPICOS…

Última passagem pelo Alentejo tradicional

Contornámos a aldeia de Quintos, para subir até próximo de Salvada; aqui nem entrámos. Pela inversa, não evitámos cruzar a aldeia de Cabeça Gorda, onde as ruas ainda são pavimentadas por pedra. As cabeças viraram-se à passagem dos Land Rover, ruidosos a rolar sobre a calçada, ainda para mais com pneus para todo terreno. Mas só parámos na Trindade, ainda mais a oeste. Porque a manhã estava quase no fim, era chegado o momento de abrirmos o pacote do almoço e provar a primeira sanduíche de carne assada.

As sombras foram bastante disputadas junto ao pequeno jardim de Trindade, pois, entretanto, o sol tinha despontado e o calor do meio dia lembrava-nos que estávamos no Alentejo. Que aqui nos revelava de novo o aspecto tradicional da região, com planícies a perder de vista, onde ainda se cultivam cereais. De quando em quando, a planura é rasgada por colinas, polvilhadas por sobreiros e azinheiras, algumas de porte tão grande que as imaginamos seculares.

O almoço foi riquíssimo. Sobretudo porque foi reforçado pela generosidade de alguns companheiros de viagem e de aventuras, que tinham montado mesa farta e insistiram que nos juntássemos numa degustação de queijos e enchidos. E mais algumas coisas, para ajudar a desembuchar e para não nos engasgarmos, de tanto rir das piadas…

Finalmente por terras algarvias, através do barrocal

Albernoa, Entrada, Castro Verde e Ourique assistiram ao desfile dos Land Rovers, na despedida do Alentejo. A tarde, cada vez mais quente, já ia a meio quando mudámos de região. Mesmo que não soubéssemos, teríamos percebido que já estávamos no Algarve quando a paisagem voltou a transformar-se. Agora, pela frente víamos colinas separadas por profundos barrancos, revestidas por mais árvores tradicionais.

Encontrámos os caminhos cada vez mais poeirentos. De tal modo que pareciam ter sido cobertos de farinha. E as bermas eram agora invariavelmente desenhadas por espessas fileiras de estevas, secas e queimadas pelo sol do verão que acabou de terminar.

Antes de subirmos ao Malhão e ao último ponto de encontro com Rui Teixeira, matámos a sede com uma água fresca, num café à beira da estrada. Diríamos que afogámos a sede, porque a garrafa esvaziou-se tão depressa que a dona do café ainda perguntou se já nos tinha servido? E enquanto isso, servia mais um bagaço a um velho cliente da casa, que de um trago secava o cálice. “É para matar o bicho”, disse-nos, como que a desculpar-se. Entretanto, junta-se à enorme mesa da esplanada mais uma cliente. É Alexandra, cozinheira de profissão, que em minutos quase nos conta a vida, desde que aos 16 anos foi trabalhar para Cascais. Antes que nos tornássemos amigos íntimos, voltámos a tomar lugar no Range Rover Classic de Frederico Gomes e subimos estrada acima, até ao Malhão.

O BAIXO ALENTEJO ERA TINGIDO PELO AMARELO DAS SEARAS, MAS HOJE É TÃO VERDE QUANTO O LAND ROVER DISCOVERY DO CASAL MATEUS, UMA DAS RARAS EQUIPAS A TERMINAR O “NORTE-SUL” SEM TER FALHADO O PERCURSO.

Tudo começou ao jantar e assim terminou!

O Land Rover 90 de Teixeira, que em tempos serviu a missão Ifor, na Bósnia, já estava carregado e apenas aguardava instruções para se fazer à estrada, para a última ligação do passeio. Em vez de um café, como era costume, ofereceu-nos mais água e maçãs. Os caroços, deitámo-los pela serra, pois não faltam animais que os comam, ou terra onde possa nascer uma macieira.

Ao passarmos por Loulé a noite já estava a chegar. Os três dias de tranquilidade a participar neste passeio do Clube Land Rover estavam a chegar ao fim. E o regresso ao trânsito intenso da famigerada “Nacional 125” fizeram-nos perceber que estava a terminar o “Norte-Sul”. Tudo acabou às portas de Vilamoura, com um jantar pela noite dentro e as despedidas sentidas. Deixámos velhos e novos amigos com a promessa de regressarmos ao convívio, na primeira oportunidade!

Texto e fotos: Alexandre Correia

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